Capa de
Foto: Reprodução / Facebook
 

Inércia? Passividade? Gelo? Monotonia? Cara de c*? Nada disso! Aqui falaremos justamente do contrário: de atividade, de movimento, de fogo, de energia e de ter um parafuso solto. Aliás, é isto que caracteriza RASGACABEZA, o novíssimo álbum da banda Francisco, el Hombre.

Três anos após o lançamento do elogiadíssimo SOLTASBRUXA, que disparou o grupo para o Brasil todo, eles estão de volta. Sem poupar críticas, a banda apareceu com uma evidente proposta de não deixar ninguém parado e para isso utilizam o fogo, estampado na capa, como principal elemento do trabalho.

A metáfora do fogo

Usamos, mesmo sem perceber, várias metáforas referentes à temperatura no nosso cotidiano. Desde “Fica frio!” até “Deixa de ser esquentadinho!”, e a simbologia por trás do calor e do frio traduzem estados diferentes.

Uma vez com o objetivo de atiçar o ouvinte e de causar movimento, a banda se apoiou claramente na figura do fogo durante a composição. À primeira vista, a própria cabeça flamejante da capa confirma isso, mas as referências estão principalmente nas músicas, tanto nas letras quanto nos novos arranjos.

Cientificamente falando, quanto mais alta a temperatura, maior será o grau de agitação das moléculas. Em RASGACABEZA, as canções ganharam um status mais agitado, mais frenético, inquietos, e misturam elementos de diversos gêneros.

Nas letras, que fazem menção ao calor e ao fogo, isso também fica evidente. O disco começa com a já divulgada anteriormenteChama Adrenalina“, que vê o fogo como “ritual, reação, pulsão de vida”. A letra também propõe uma solução para o mal da monotonia de uma maneira metaforicamente eficiente, através do uso da gasolina.

O contexto continua em “Chão Teto Parede“. A faixa, que já estava sendo tocada nos shows mais recentes da banda, foi gravada em parceria com Capilé. A letra incita movimento (tal como a banda deixou claro nas apresentações ao vivo da música), com a suposição de que o chão, o teto, a parede e todo o palácio estão pegando fogo. Ficar parado claramente não ajuda, muito mais com os dançantes elementos eletrônicos na base da música.

Calma, eu disse “eletrônico”?

Uma sonoridade ainda mais ampla

Com mais energia se comparado aos lançamentos anteriores, o novo álbum bebeu de algumas outras fontes para se consolidar. Isso concretizou um disco arriscado que inevitavelmente irá acabar recebendo opiniões das mais diversas.

Já conhecidos pela mistura de MPB, música latina e rock, agora eles afirmaram familiaridade com elementos da música eletrônica. No decorrer do álbum, beats e loops marcam forte presença. A terceira faixa, “Travou“, ao comparar os seres humanos a máquinas, descreve a ironia de se morar no centro de uma cidade, sob diversas angústias e o medo de cair na rotina. Para ilustrar esse sentimento a frenética canção abusou desses elementos com resultados interessantes como quando simulou o famoso erro da “tela azul” no refrão.

No entanto, a Francisco, el Hombre foi bem antropofágica e propôs a mistura sem perder a sua essência. Isso fica claro na música seguinte, “Encaldeirando“, que conta, além da participação de DBL, com um dançante groove de baixo e um instrumental que remete muito à música latina. Até esse ponto, já ficamos cientes de que o objetivo da banda com o novo álbum é nos fazer mexer a qualquer custo, não importa qual seja o gênero em destaque.

“Mesmo com o câmbio em ponto morto, me acelerei”

A essência latina, presente no sangue do grupo, e da MPB, não escapam em nenhum momento. Mesmo com toda a energia das novas influências da Francisco, o violão ainda tomou um lugar de destaque em “Parafuso Solto“. Enquanto isso, na letra, de novo aparece a metáfora da máquina. Com poucos movimentos, dura e fria, a máquina logo é descomposta por um simples parafuso solto.

O momento de “paz” do disco fica com a faixa seguinte, a bela e pessoal “O Tempo É Sua Morada“, que ganhou um clipe absurdamente emocionante há alguns meses. Primeira canção do novo álbum a ser divulgada, a música gera um momento de reflexão em meio ao incêndio, desacelerando a velocidade proposta até então. É um olhar para o passado e, ao mesmo tempo, uma celebração. Pela primeira vez o fogo não é citado, dando espaço a outro dos quatro elementos da natureza, o vento (“se o vento te levou, o tempo é sua morada”).

Conclusão

O ritmo acelera logo depois quando chega a hora da frenética “Manda Bala Fogo“. Com a letra sendo rapidamente cantada, a banda volta à agitação, propondo que até o choro seja queimado.

Isso prepara o terreno para o “grand finale” de RASGACABEZA, a faixa “Se Hoje Tá Assim“. Usando o mesmo “alarme” de introdução da faixa de abertura, a banda pede de novo para o ouvinte acordar (ou para se manter acordado). “Se hoje tá assim, imagina o amanhã,” e se celebramos o passado há duas faixas, agora miramos o futuro que, para ser celebrado, só depende da gente.

Com uma carcaça política, a canção na mesma onda instrumental que caracteriza o álbum lembra a importância da proatividade nos dias atuais. Ficar parado é perigoso, já que está tudo de pernas para o ar. A música faz questão de lembrar que “de censura vive o medo”, e também compara o eu-lírico a um fósforo preso em uma caixa. Para ter acesso ao oxigênio necessário para acender, ele precisa se libertar dela.

Ao final da música, o mesmo alarme toca para nos lembrar de ficarmos acordados, acompanhado de um trecho final que sintetiza a proatividade exaltada no disco:

Isso não vai ficar assim! Eu te garanto.

A Francisco arriscou, mas surpreendeu positivamente com sua tentativa de nos acordar para a vida em um álbum dançante e necessário.

   
 
REVIEW GERAL
Nota
8
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